segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Desventura da Cachoeira

Era domingo. Uma manhã estupenda que prometia aventura fosse pelo espirito que já envolvia a mim e meus comparsas ou simplesmente pelo céu despido de nuvens e sol cintilante. Saímos de casa com um destino e algum dinheiro. Tínhamos o suficiente apenas para a passagem de ida, porém uma promessa de mais dinheiro logo pela tarde.

Seguimos o nosso rumo.

Depois de várias voltas e curvas e retas e aclives, chegamos próximo ao nosso destino. Uma cidadezinha que parecia clandestina, de tão escondida. Lá encontramos uma proximidade com a natureza, tão diferente de como é hoje, que o resquício de contato que temos com ela é um detalhe que a humanidade ainda não pôde controlar, mas apenas prever, o clima.

A sensação daquele ar limpo, úmido com cheiro de fauna e flora invadindo os pulmões é algo tão mágico que eu e meus amigos nos esquecemos do breve detalhe: que não tínhamos mais tantas garantias sobre o nosso retorno à cidade das máquinas e concreto. A promessa de dinheiro havia se perdido pela falta do sinal de nossos celulares.

Ainda assim, fomos em direção à promessa de diversão, seguimos por cerca de 20 minutos contagiados pelo entusiasmo de nos banharmos na queda de uma cachoeira. Cheguei e fiquei deslumbrada, pensava em como eu podia ter me esquecido de como aquilo era bom.

Aquele lugar que mexia com todos os sentidos pelo cheiro de terra molhada, pelo barulho da água se movendo lentamente sem saber pra onde e de repente como se fosse num surto da natureza, acaba o chão e a água cai constante e abruptamente, mas sem interesse, apenas por capricho da gravidade e forma um barulho mais intenso e bolhas que se espalham em uma vista assimétrica, porém perfeita, que talvez algumas gerações futuras não vejam.

Nos divertimos, tiramos fotos, eu titubeei em deixar ou não que o rio me envolvesse em toda a sua viscosidade e me abraçasse, pois o aconchego da água de julho não era algo tão convidativo. Depois de muito analisar, acabei me rendendo.

Éramos 6 crianças brincando na água e acabamos nos esquecendo do frio.

Pouco antes do entardecer nos secamos e seguimos rumo ao ponto do ônibus que nos levaria para casa. Só então nos lembramos de que estávamos sem o dinheiro que nos transportaria.

Nos esquecemos de nos preocuparmos, afinal era domingo, estávamos à procura de uma cachoeira e em uma cidade tão diferente que parecia que o capitalismo é uma história tão remota quanto qualquer outra história de perseguição ou exploração.

Apesar de, para mim, dar tudo na mesma, só mudou de nome.

Seguimos para o centro da cidadezinha e só pensávamos em retornar, tomar um banho, comer e nos aninharmos em nossas casas. Caminhamos sem pressa, transbordando em idéias rotas, mas não menos satisfeitos pelo passeio.

Sem esperanças, apenas aguardamos o ônibus chegar.

Ficamos imaginando o que fazer para conseguir dinheiro. Pensamos em vender o celular de alguém: péssima ideia pensariam que éramos drogados e que havíamos roubado o celular de algum habitante da cidade, se é que lá existiam celulares.

Algum tempo depois, outro plano surgiu enquanto eu via um grupo garotos de pr´-adolescentes, com os hormônios à flor da pele, jogando bola na pracinha. Talvez eu conseguisse um trocado de cada um mostrando meus seios.

Por pudor ou por vergonha eu me contive. 

Por fim, conseguimos sinal no celular e ligamos para um amigo, que nos esperaria em um dos primeiros pontos da cidade onde morávamos. Inventamos uma história meio mirabolante que contaríamos ao cobrador do ônibus com cara de cachorro sem dono, que por gentileza ou dó nos levaria para casa.

Nossa estória consistia na perca de uma bolsa que continha o dinheiro de todos nós.

Chegada a hora, fomos conversar com o cobrador e vendemos nossa estória. O cobrador ou por má vontade ou descrença na honestidade humana, mal nos deixou terminar a estória e já disse que nada poderia fazer.

Só quem está cansado, numa cidade desconhecida, com fome e sem dinheiro, sabe a dor que é ver seu transporte partir sem você.

Porém, como dizem, nada está tão ruim que não possa piorar. De repente começa um chuvisco e tudo o que fazemos é torcer para não engrossar.

Nesse meio tempo, tivemos outra ideia. Iríamos até a delegacia da cidade e faríamos um BO, alegando que havíamos sido furtados na cachoeira. Talvez, assim, os policiais arranjassem uma forma de nos levar para casa sãos e salvos.

Fomos até o ponto de taxi e perguntamos onde ficava a delegacia da cidade e ficamos perplexos com a resposta que obtivemos, não existia delegacia na cidade. Contudo, outro taxista nos alertou que existia uma DP logo na entrada da cidade.
Cerca de 15 minutos de caminhada depois, estávamos batendo às portas da DP.

Dessa vez nossa cara de cachorro abandonado, seria ainda mais contagiante, pois todo mundo tem dó de cachorros famintos, molhados e perdidos. porém mais uma vez, fracassamos. O coração desse povo ou era feito de pedra ou já foi muitas vezes passado para trás.

Retornamos ao ponto de ônibus e torcemos para que fosse um cobrador diferente e mais caloroso. Depois de pensar um pouco mais, concluímos que, seria contar demais com a sorte. Resolvemos, então, apenas entrar como quem não quer nada, sentar antes da roleta do ônibus e esperar até chegar à nossa, agora tão amada, cidade das fabricas e edifícios.

No meio da viagem, bem no meio do nada, onde nem ao menos havia civilização, o cobrador nos pede o dinheiro da passagem. Todos “dormiam”. Ele insiste “A passagem, por favor”. Todos continuram dormindo. Até que a mais brava e fiel escudeira de nosso bando, responde com medo e conta toda a estória do furto e do quanto nós queríamos voltar para casa.

Não sei se este cobrador ainda acreditava no decoro dessa gente da cidade grande, se ficou com dó ou se não tinha outra opção e nos concedeu uma chance.

Continuamos a viagem e dormimos de verdade dessa vez. Chegando à cidade, ficamos ansiosos para o encontro com o nosso amigo e o tão valioso dinheiro de merda.

Passamos, finalmente, pelo ponto de encontro com nosso amigo, porém não se avistava ao menos uma sombra. Ficamos desesperados, inclusive o cobrador. Ao passarmos pelo próximo ponto, vimos o nosso salvador.

Pegamos o dinheiro com ele e conseguimos chegar em casa, comemos e tomamos o tão esperado banho.

Nos esquentamos com o banho quente que tem um preço, nos saciamos com comida, também, comprada. Nosso passeio quase foi um fiasco por causa do dinheiro. Pois bem, tudo até pode ter um preço mas ultimamente não é mais tão claro que o nosso suor sagrado é bem mais belo que esse dinheiro amargo desse capitalismo selvagem! Selvagem! Selvagem!...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fred: O Duende Roedor

Certa tarde, eu procurava incansavelmente o meu RG. Minha colega de apartamento na época me contou uma crença dela que, às vezes, quando estamos muito deprimidos, os duendes tentam se vingar pelo ar cinza que deixamos a nossa volta e escondem nossos objetos. E que, para fazermos as pazes com eles, devíamos colocar uma maçã verde no jardim de casa.

A técnica sempre dava certo e por isso usei e abusei dessa crença.

Uns 2 anos depois, tudo sumia em casa. Sumiam talheres, objetos do meu quarto e das outras meninas que moravam comigo. Enfim, o duende de casa estava mais revoltado do que nunca.

Corri e comprei a bendita da maçã verde.

 As coisas começaram a reaparecer. O pior foi quando começaram a aparecer coisas que nós não tínhamos perdido e nunca iriamos querer encontrar.

Então coloquei a fruta num vaso de uma planta na sala de casa. A maçã ficou lá por pouco mais de uma semana e as coisas começaram a reaparecer. O pior foi quando começaram a aparecer coisas que nós não tínhamos perdido e nunca iriamos querer encontrar.

Até que num sábado a tarde, enquanto me descontraía num churrasco ou me recuperava da bebedeira da noite anterior, recebo uma ligação da GabiG, que dividia apartamento comigo:  “Daf, estou com medo! A maçã do duende tá mordida, vem dormir em casa hoje!” . Eu disse que era pra ela relaxar, que ele não ia fazer mal algum e não apareci em casa.

No domingo a noite chego em casa, não muito bem, com barbantes que insistiam em se enrolar dentro do meu estomago e algum tipo de prensa invisível  que apertava meu cérebro sem parar.

Muitos chamariam isso de ressaca, mas me recuso a aceitar que meu corpo me puniria desta forma pela diversão do fim de semana.

Enfim, ao entrar em casa, encontro a maçã mordida no meio do chão da sala. Vou falar com a GabiG e ela me disse que pela manhã a maça já estava ali. Ficamos assustadíssimas.

Fora o duende.

Com isso, ficamos com medo de dormir. Só medo mesmo, porque o cansaço do fim de semana era pior do que trabalhar a semana toda sem dormir.

Na segunda, enquanto limpava a casa, encontrei um objeto não identificado semelhante a um grão de arroz em escala maior e marrom, tudo bem, não era assim tão semelhante a um arroz, mas tinha o mesmo formato, comprido e achatado, desisto, não consigo descrever de forma melhor, algo semelhante a um arroz. 

Logo pela noite mostrei para a Gabi.

Ao analisarmos melhor o objeto não identificado semelhante a um arroz bronzeado, nos demos conta de que nosso duende não era bem um duende. Ele era na verdade um asqueroso e repugnante roedor.

Ó céus, um rato.

Eu e GabiG procuramos alternativas para exterminar aquele animal embrulhador de estomago. Uma ratoeira foi a primeira alternativa, mas e se ele não morresse com o ataque que deveria ser fulminante daquele aparato de ferro teríamos que terminar o serviço sujo.

Mas com qual coragem?

Pensamos também em dar veneno. De certa forma obscura isso parecia ser menos terrível do que dar uma paulada na cabeça de nosso companheiro de apartamento clandestino, caso a ratoeira não funcionasse.

Até ai tudo bem, mas ele iria comer o veneno e sair pela casa agonizando com a sua terrível dor do fim e iria se esconder. Iriamos encontrá-lo apenas pelo odor fétido que seu pobre corpo deixaria na nossa aconchegante casa.

Mais um plano que foi por água a baixo.

Enquanto decidíamos o que fazer com nosso “mascote”, passamos a fechar todas as portas da casa. A porta que saia da área de serviços para a cozinha, a que saia da cozinha e ia para a sala, a do banheiro e as dos quartos.

Certa noite, enquanto torcíamos secretamente que ele fosse embora por livre e espontânea vontade, sai do meu quarto e deixei a porta aberta (erro 1) fui até a cozinha, tomei um copo de água e esqueci a porta da cozinha aberta (erro 2). Durante o trajeto de retorno até meu quarto resolvi fazer uma vista ao quarto da GabiG (erro 3 nada, foi ai que a merda estava formada).

Cerca de 15 minutos depois estava de volta ao meu quarto. Quando acendo a luz, ouço algo andando em cima do meu guarda-roupas e de repente esse barulho se materializa num vulto cinza e desce pela porta do guarda-roupas e entra em outro armário, ainda no meu "moquifinho".

Enquanto ele descia pela porta eu dei um grito somado a um passo para trás para tentar assimilar o que estava acontecendo. Esbarrei num copo que caiu no chão e se espatifou.

É ai, só na hora do aperto, que a gente vê em quem pode confiar.

Ouvi chaves se retorcendo na fechadura dos quartos das outras duas colegas de apartamento. Fechei a porta do armário onde se escondia o fofo e sai pela casa desesperada a procura de socorro.

Bati na porta do quarto da GabiG.

Antes de abrir a porta ela pergunta o que tinha acontecido, se era ladrão ou algo do gênero, me dissolvo em raiva, mas me recomponho porque iria precisar de sua ajuda.

Respondi em voz tremula e com os lábios cerrados: “O rato, ele está no meu quarto”. Ouvi de novo a chave rodando e surgiu um olho arregalado e assustado, meio confuso.

Com apenas um olhar nos decidimos.

Sabíamos que era agora ou nunca, o fim do acampamento de férias do dito cujo. Aparelhamo-nos com tênis e uma vassoura para cada. Fechamos todas as portas do corredor e deixamos a porta da sala que dava para o hall de saída aberta, a fim de que ele educadamente se retirasse.

Seguimos em direção ao cômodo no qual aquele intruso insistiu em se acomodar: o meu quarto. Eu e GabiG verbalizamos o plano em um cochicho, não sei o porque do cochicho, mas, no momento do pânico, quanto menos informações o inimigo tiver, melhor.

Abrimos a porta do armário e lá estava ele.

A GabiG, em cima da cadeira, cutucando-o para que saísse de lá de dentro e eu atrás dela para conduzi-lo até porta do quarto e depois à porta da sala e, por fim, para fora de nossas vidas.

Só na hora que ele saiu de dentro do armário é que nos demos conta do quão enorme ele era.

Começamos a gritar de medo.

Ele, que não é nenhum pouco vítima nessa história toda, se assustou com os berros e correu para fora do quarto. Saí do quarto antes dele e já estava aposta na sala, só para ter certeza de que ele não erraria o caminho de saída.

O bicho estava mais assustado que nós.

Tentou entrar no banheiro, chegou a escalar a porta até a metade para ver se conseguiria sair daquela emboscada. Ao perceber que por ali não teria êxito na luta por sua vida mansa, correu em minha direção e não se intimidou com a vassoura que eu tinha nas mãos.

Mas eu me intimidei com aquele duende do esgoto.

Cometi o erro de deixa-lo correr para a sala. Na sala ele se refugiou no lugar mais alto que pôde. Escalou a cortina e ficava correndo de um lado para o outro no varão da janela.

Ao ver tal cena eu e GabiG nos desesperamos.

Resolvemos buscar reforço e chamar a GabiZ, que demorou para nos atender, mas, tamanho nosso esforço para acordá-la, se sentiu envergonhada demais para continuar fingindo que dormia.

Ela colocou um tênis e ganhou um rodo para nos ajudar na batalha.

Ficamos alguns minutos paradas observando aquele rato enorme que estava não tão bem acomodado na nossa sala. Nos momentos que ele estava parado, nós o olhávamos e riamos da situação toda, não conseguíamos acreditar que ele era tão grande e chegamos a batiza-lo.

Agora aquele duende roedor tinha um nome, Fred. 

Quando ele resolvia correr de um lado para o outro do varão a gente saia em disparada correndo de tênis pelo corredor com nossas respectivas armaduras e armas:  pijama e rodo ou vassoura na mão com as bocas escancaradas e ruidosas. Ao chegar ao final do corredor resolvíamos voltar lá e agir como mulheres.

Ficamos nessa por algumas horas.

Víamos na cara do Fred que ele estava tão desesperado quanto a gente. Como nós éramos as cabeças pensantes resolvemos tomar uma iniciativa. Pegamos todos os chinelos que estavam pela casa e começamos a tentar acertar a cabeça dele. Foi aí que percebemos o quão ruim era nossa mira.

Não passava nem perto da cabeça do Fred.

Oras, nunca ganhamos nada no tiro ao alvo das quermesses, porque diabos conseguiríamos acertar a cabeça dele que ficava correndo de um lado para o outro no seu balé "troll".

Ainda assim, só desistimos de arremessar os objetos "pediculares" porque todos eles estavam próximos demais da cortina e tínhamos medo de que o Fred se rebelasse contra uma de nós e pulasse em cima de nossas cabeças.

A gente ficava olhando e analisando toda aquela situação, incrédulas de que não conseguiríamos vencer as habilidades de sobrevivência de um rato de esgoto. As 3 cabeças pensantes chegaram a conclusão de que a janela deveria estar aberta.

Uma xingava a outra intimamente por ninguém ter pensado nisso antes.

Ao analisar um pouco mais a situação e a janela e a ideia dela aberta, pensei inicialmente em jogar algo no vidro com tamanha força até que ele se espatifasse e abrisse passagem para o nosso amigo. Mas o barulho do vidro se rompendo no meio da madrugada não soou como uma boa ideia.

Gerônimo. 

A janela tinha basculantes nos cantos superiores. Só precisaríamos encontrar uma forma de abri-las. O rodo! O rodo tem um gancho na ponta do cabo. Peguei o rodo e fui mijando nas pernas de medo do Fred pular na minha cabeça e tentei puxar o gancho da basculante.

Não consegui.

Fora o plano com mais probabilidade de êxito que havíamos tido durante as nossas 2 horas de alvoroço.

Insistimos então no plano. Uma segunda tentativa. Mas quem vai agora? A Dáfine tem mais experiência nisso que a gente. Encheram-me de frases de incentivo. "Você  já tentou uma vez e sabe como é". "É só dar umas corrigidinhas que você consegue". "Foi quase". "Vai lá". "A gente olha para ele e se ele se mexer, a gente te avisa".

Eu não sabia se olhava para o gancho da basculante ou se o olhava para a cara tensa do Fred. Por fim, consegui abrir a bendita da porta da felicidade minha, das meninas e do Fred.

O Fred pulou.

Ele se viu livre das três meninas histéricas e desse mundo cruel onde ratos nem duendes têm vez. Ele se jogou da janela do 2º andar, nada fácil de entender. Dormiremos agora, é só um rato lá fora.